18 de julho de 2020

A primeira tópica de Freud e a Moral Religiosa

Por EduTomazett

Em sua Primeira Tópica, Freud organiza o aparelho psíquico em 3 instâncias psíquicas, sendo elas o Inconsciente, Pré-Consciente e Consciente. Essa divisão possibilita um melhor estudo sobre as causas das neuroses e o seu funcionamento, possibilitando determinar a origem dos conflitos e a sua solução. Essa divisão criada tem como objetivo estudar a mente humana, de forma abstrata, pois não é possível localizar onde fisiologicamente encontram-se essas separações.


A relação com a nossa dimensão racional é dada pelo Consciente, que é regido pelo princípio da realidade. É nessa instância que se encontram os conteúdos manifestados pela nossa mente, tais como: Os pensamentos, as percepções, as ideias e o raciocínio.


Nossas recordações e memórias são responsáveis pelo nosso Pré-Consciente, sendo que essas recordações são influenciadas diretamente pela emoção existente no momento em que ocorreu o fato. Como uma instância intermediária, faz a ligação entre o Consciente e o Inconsciente, flutuando entre a parte visível e invisível do comportamento humano. Além de armazenar as memórias, tem como função impedir a manifestação de pulsões inaceitáveis, criando assim o recalcamento, processo normal e indispensável ao equilíbrio psicológico e social do indivíduo. Para cada um, existe uma espécie de limite para esse recalcamento e, atingindo este limite, surgem as neuroses. Todos esses sentimentos recalcados pelo Pré-Consciente, ficam guardados no Inconsciente.


E a maior descoberta de Freud, se dá no Inconsciente, sendo a maior e mais importante instância da mente humana. É nele que se encontram o mecanismo para a interpretação e entendimento de nosso comportamento, além de ser regido pelo princípio do prazer. Nossos medos, desejos, pulsões e recalques estão armazenados nessa parte da mente.


O Inconsciente, é então, o foco principal de estudo, pois ele nos fornecerá uma espécie de “Pedra de Roseta” para a mente do sujeito objeto de análise. Essa instância se manifesta de forma espontânea através de alguns acontecimentos, como os atos falhos, alguns sintomas de neuroses e também através de sonhos. Os atos falhos são aquelas ocorrências onde sem perceber, falamos ou agimos de forma a evidenciar algum sentimento reprimido. As neuroses, seguindo Freud, são causadas pois certos impulsos não são compatíveis com a realidade exterior, ou ainda, são impossíveis de serem concretizados, desenvolvendo assim um estado de ansiedade e mal-estar no sujeito, provando provocar distúrbios mentais. Essas neuroses podem se caracterizar por raiva excessiva, medo e ansiedade. Para Freud, os sonhos são a realização ilusória de um desejo. Enquanto sonhamos, nossos desejos mais profundos e reprimidos possuem a oportunidade de vivenciar essa realização. Nos sonhos podem ser identificados o conteúdo manifesto, que é o sonho propriamente dito e o conteúdo latente, que é o significado escondido dentro da história sonhada.


Temos então, de forma simplificada, que o Pré-Consciente recebe do Inconsciente nossos desejos e vontades, filtrando e permitindo que o que for aceitável vá para o Consciente e o que for inaceitável seja reprimido e recalcado no Inconsciente. De acordo com a cultura de cada um, a quantidade de recalques pode ser maior ou menor e ao chegar em um determinado limite, o próprio Inconsciente irá descobrir uma forma de liberar essas emoções reprimidas, seja em formas de sonhos, atos falhos ou em casos mais graves, de neuroses.


Para entender melhor o paciente e suas neuroses é preciso então entender a sua cultura. Como foi sua criação, a forma como foi educado e a maneira como o mundo foi mostrado para ele. É na religião que temos então um grande causador de recalques, não porque a religião em si é algo ruim ou prejudicial, mas pelo motivo da maioria das religiões se basearem em dogmas, verdades absolutas daquela religião. As religiões de origem judaica, como o cristianismo e todas as outros que derivam dessa segunda, possuem seus fundamentos baseados nos 10 mandamentos. Se analisarmos apenas os 10 mandamentos, de forma simples, teremos já alguns motivos para repressões na mente humana, como por exemplo: “Honrar pai e mãe”; “Não cometer adultério”; “Não prestar falso testemunho”; “Não cobiçar a mulher e a casa do próximo”.


A partir dos mandamentos citados anteriormente, teremos uma pessoa que irá ser obediente aos ensinamentos dos pais, alguém que não irá trair sua esposa ou marido e ainda, uma pessoa que não irá mentir e tampouco ter inveja dos bens alheios. Dependendo da forma como a religião foi apresentada à pessoa, principalmente na infância, esses mandamentos podem causar uma grande repressão e possíveis traumas na mente do sujeito. Faz parte do crescimento do ser humano romper alguns limites e esses limites por diversas vezes são impostos pelos pais. Um grande peso no quinto mandamento (“Honrar pai e mãe”) poderá gerar no sujeito um medo muito grande de desagradar os pais, de não criar seu próprio caminho e assim seguir exatamente os desejos dos pais, que algumas vezes podem ser projeções de suas próprias neuroses em seus filhos.


Para cada mandamento, dogma e regra, alguma repressão será causada. É justo dizer que a religião promove sim a melhoria do homem, tanto enquanto indivíduo, quanto sociedade, porém o medo da punição eterna, dos pecados e dos carmas, pode fazer com que a pessoa fique apenas reprimindo suas vontades, recalcando-as e criando assim neuroses diversas. É importante que a mente do sujeito seja alimentada para que ele mesmo consiga dialogar entre seus desejos e sua razão, para que de forma saudável consiga inibir desejos que não condizem com a sua moral e dar vazão para aqueles que irá leva-lo a uma próxima etapa de sua vida.


Este artigo não tem o foco de desmerecer nenhuma religião e nem os dogmas, mas possui sim o objetivo de trazer um pouco mais de luz para que o terapeuta consiga analisar o paciente de forma mais completa, levando em consideração algo que é tão íntimo da pessoa e tão importante na cultura brasileira.